domingo, 9 de dezembro de 2012

Cristo em nós pela fé


Quando Jesus deixa de estar fisicamente entre os seus, o movimento ao encontro d’Ele deixa de se traduzir numa deslocação – um ir ao encontro e segui-l’O – como acontecia antes da ressurreição. Aquele que acredita n’Ele continua a fazer um caminho, mas este consiste em abandonar-se n'Ele, em entregar-se e reservar para Ele um lugar. 

O paradoxo da fé torna-se assim mais evidente: a fé é simultaneamente quase nada e o que conta acima de tudo. Consiste em abrir-Lhe constantemente a porta do nosso coração, mesmo sabendo que Ele já está lá dentro. Haverá alguma coisa mais pobre, mais gratuita do que isto: abrir a alguém que já entrou? 

Cristo não vive em mim como um estranho que quer desalojar-me. Ele está presente como alguém que me ama, que se pôs no meu lugar, que no Seu amor está no mais profundo de mim mais do que eu próprio. No entanto, sou eu que tenho de lhe abrir a porta constantemente, porque entre Ele e eu é tudo pessoal, nada se faz sem mim, de forma automática. Trata-se de uma relação viva.

São Paulo exprime isto com grande delicadeza: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim» (Gálatas 2,20). 

Cristo está presente, pois tendo acreditado n’Ele nós entregámo-nos a Ele: já não sou eu que vivo, é Ele que vive em mim. Contudo, enquanto estamos nesta vida, só podemos viver esta realidade na fé, entregando-nos constantemente a Ele, abandonando-nos a Ele, abrindo-Lhe o nosso coração.

É também neste sentido que podemos compreender São João, quando descreve a fé como «o poder vitorioso que venceu o mundo» (1 João 5,4). 
São João não quer sugerir que devamos levar a nossa fé a um tal ponto que o mundo deixe de ter poder sobre nós e de nos poder seduzir. Não. 
São João lembra-nos que tendo vindo pela fé, deixámos Cristo entrar na nossa vida e que assim o mundo foi desmascarado em nós com tudo aquilo em que nos quer fazer acreditar. Passamos assim a ter a porta do nosso coração aberta a Cristo, Ele que «é mais poderoso do que aquele que está no mundo» (1 João 4,4). 
A partir desse momento podemos dizer que é Ele a nossa fé.

São Paulo usa, aliás, uma expressão curiosa: «a fé de Cristo» (Filipenses 3,9, por exemplo). Não se trata, pois, apenas de uma fé em Cristo, ou seja de um reconhecimento de quem é Cristo e de um abandono, de uma
confiança n’Ele. Há mais: a fé vem d’Ele, como um dom, esta fé é a fé de Cristo e eu recebo-a como aquilo que me une a Ele e me faz viver como Ele.

Mais uma vez a minha parte na fé parece ser quase nada. E, no
entanto, com a fé tudo me é dado. Esse «quase nada» determina a minha maneira de ser.

HÉLDER GONÇALVES

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