segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Jesus fez milagres?


Entre as acusações mais antigas dirigidas por Judeus e pagãos contra jesus, conta-se a de Ele ter sido um mago. No século II, Orígenes refuta as imputações de magia que Celso atribui ao Mestre de Nazaré (contra Celso 1,38), às quais também aludem São Justino, Arnóbio e Lactâncio. De igual modo, algumas tradições judaicas, que podem remontar ao seculo II, contêm acusações de feitiçaria contra Jesus. Numa delas diz-se o seguinte: «Na véspera da Páscoa, Yeshu (Jesus) foi crucificado. Durante quarenta dias, antes que tivesse lugar a execução, um arauto percorria as ruas, gritando: “Este vai ser apedrejado por ter praticado bruxaria, seduzindo e enganando Israel”» (Talmude da Babilónia, Sanhedrin, 43 a). Neste texto, e nos outros casos acima indicados, reconhece-se que Jesus fez milagres, embora não se admita que estes tiveram uma origem divina, sendo por isso atribuídos à magia. É a mesma acusação que aparece no Novo Testamento. Para alguns, jesus fazia milagres em nome de Belzebu (Mc 3,22 e paralelos).

Por outro lado, se compararmos os milagres de Jesus com os prodígios realizados por outros personagens da época (Hanina bem Dossa, Honi, o traçador de círculos, Eleazar, o exorcista, Apolónio de Tiana) concluiremos que se verificam entre eles diferenças notáveis. Jesus distingue-se dos outros pelo número, muito maior, de milagres que realizou e pelo sentido que lhes deu, completamente diferente do dos prodígios realizados por alguns daqueles personagens.

O número de milagres atribuídos a outros taumaturgos é muito reduzido, ao passo que o Novo Testamento dá notícia de numerosos milagres feitos por jesus.

Nos Evangelhos encontram-se vinte e sete relatos de milagres. Além disso, há referência a muitos outros milagres que Jesus realizou e que não são explicitamente mencionados. Numa passagem de São Mateus, por exemplo, Jesus refere milagres realizados em Corazim e Betsaida, que não são recolhidos pelos Evangelistas: «Ai de ti Corazim! Ai de ti Betsaida! Porque se os milagres realizados entre vós tivessem sido feitos em Tiro e em Sídon, de há muito se teriam convertido, vestindo-se de saco e com cinza» (Mt 11,21; Lc 10,13). São João também diz, no final do seu Evangelho, que «muitos outros sinais miraculosos realizou ainda Jesus, na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro» (Jo 20,30). Por isso, São Pedro poderá referir-se a Jesus no dia de Pentecostes como «homem acreditado por Deus junto de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou no meio de vós por seu intermédio» (Act 2,22-23). Ver também (Mc 1,32-34 e paralelos; 3,7-12 e paralelos; 6,53-56).

O sentido que Jesus deu aos seus milagres também é diferente do de qualquer outro taumaturgo: Jesus faz milagres que implicam, para os respectivos beneficiados, um reconhecimento da bondade de Deus e uma mudança de vida. A sua resistência em fazê-los mostra que não procura a sua própria exaltação ou glória. Daí que tenham um significado próprio. Os milagres de Jesus são entendidos no contexto do reino: «Se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demónios, então chegou até vós o Reino de Deus» (Mt 12,28). Jesus inaugura o Reino de Deus e os milagres são uma chamada a uma resposta de fé. Isto é fundamental, sendo um sinal distintivo de todos os milagres que Ele realizou. Reino e milagres são inseparáveis.

Portanto, Jesus fez milagres para confirmar que o Reino estava presente nele, para anunciar a derrota definitiva de Satanás e para aumentar a fé na sua pessoa. Os seus milagres não podem explicar-se como acções assombrosas mas como actuações do próprio Deus, com um significado mais profundo que um simples facto prodigioso. Os milagres, como disse São João, são sinais de outras realidades espirituais: as curas do corpo – libertação da escravidão da doença – significam a cura da alma da escravidão do pecado; o poder de expulsar os demónios indica a vitória de Cristo sobre o mal; a multiplicação dos pães alude ao dom da Eucaristia; a tempestade acalmada é um convite a confiar em Cristo nos momentos difíceis; a ressurreição de Lázaro anuncia que Cristo é a própria ressurreição, figura da ressurreição final, etc.

Assim, pois, do conjunto de afirmações do Novo Testamento e de outros testemunhos extra-biblicos, entre os dados da vida de Jesus considerados comprovados conta-se, hoje em dia, o facto de Ele ter realizado milagres aceites como demonstrados sobre a sua vida e de estes estarem associados à proclamação do Reino de Deus.

HÉLDER GONÇALVES

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