quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Eu creio Senhor

Como é que a Bíblia pode falar, num sítio, de «plena segurança da fé» (Hebreus 10,22), logo de uma plena consciência da fé e, noutro, de uma «fé como um grão de mostarda» (Lucas 17,6) semelhante à semente mais pequena do jardim?

Como devemos entender a relação entre estas duas afirmações, como situá-las no concreto da nossa vida?

O pai do rapaz epiléptico ousou dizer a Jesus numa só frase, com toda a força que vem da angústia: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!» (Marcos 9,24).

A fé pode ser sentida como uma realidade austera. Dizemos com facilidade que «só a fé» deve bastar.

Insistimos no despojamento: quem crê deve contentar-se em não ter mais nada, em não ter nenhuma prova, em não ter visto, em não saber e nem sequer compreender, em não sentir. E, apesar disso, haverá alguma coisa que determine tanto a nossa vida como esta fé aparentemente tão austera?
Nada influenciou tão profundamente as decisões de uma vida nem garantiu a continuidade desse caminho como essa pouca fé que é quase nada. Podemos dizer sem receio de nos enganarmos que a fé é tudo na nossa vida e, em última instância e com a mesma legitimidade, que não é quase nada. É impossível mostrar o que é a fé em si mesma. Não a tenho, não é minha. A dúvida acompanha-a de perto, pisa-lhe os calcanhares, como tão bem exprimiu o pai do rapaz epiléptico no seu pedido.

Assim, será que a dúvida é como o bicho que existe à partida no fruto e que acabará por fazer com que este apodreça e caia ao chão?
Não necessariamente. Se podemos ter dúvidas é porque Deus não nos impôs nada e respeita sempre a liberdade do nosso coração.
Poderíamos sentir-nos tentados a dizer: isto acontece porque Deus tem confiança em nós e deseja ter connosco uma relação sem quaisquer restrições.
A dúvida pode tornar-se perigosa: sob ela abre-se um abismo. Mas não podemos tratá-la como se de um elemento estranho ou falso se tratasse. Ela existe porque a fé existe.

Na verdade, o contexto em que vivemos hoje em dia torna a presença da dúvida mais insistente do que nunca. Antigamente podíamos acreditar com toda uma comunidade crente, apoiados pelas convicções de um corpo social, quer este fosse a paróquia, quer a Igreja no seu todo. Hoje, mesmo quando nos apoiamos na fé de todas as outras testemunhas, este apoio do corpo social já não funciona da mesma maneira. A fé tornou-se muito mais pessoal. Distingue-nos muitas vezes dos que nos são mais próximos.

E, ao tornar-se um percurso pessoal, torna-se inevitavelmente mais frágil.

Para além disso, a ciência moderna tende a confinar a fé ao domínio do estritamente interior. Muitas vezes sem querer, pode atingir a fé na sua natureza, porque a fé em Cristo inscreve-se sempre na História e abrimos a uma missão nesta terra. Relegando a fé para o domínio interior, tanto as ciências exactas, como as ciências humanas, tais como a Psicologia, podem torná-la muito mais frágil, pois ao retirar à fé o seu impacto na vida concreta, desligam-na da História. E é igualmente a dúvida sobre este impacto que se torna mais insistente. Não podemos, no entanto, queixar-nos desta situação. Porque a verdadeira natureza da fé continua a revelar-se da mesma forma.

HÉLDER GONÇALVES

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