domingo, 6 de janeiro de 2013

Quem és Tu?


Começo por fazer duas perguntas que podemos encontrar nos Evangelhos: uma colocada a Jesus e outra em que é Ele que nos interroga.

Em primeiro lugar, a pergunta que as multidões fazem a Jesus: «Quem és Tu, afinal?» (João 8,25).

Acreditar é difícil. Isto deve-se à natureza da fé, porque acreditar expõe-nos ao que não pode ser provado.
Na medida em que a fé é autêntica, haverá sempre fragilidade nela, uma fragilidade que lhe é inerente.

No entanto, a dificuldade em acreditar reside também na identidade deste Jesus no qual eu creio. Queria perguntar-lhe: «Quem és Tu, afinal?»
Mesmo se é verdade que a fé é em si frágil, em última instância a interrogação vem-nos da tua pessoa, Senhor Jesus. Quem és Tu, afinal?

Se tivesses sido uma grande figura religiosa, poderia admirar-Te e tomar a tua vida e os teus ensinamentos como modelo de vida. Mas ficaria distante e não acreditaria em Ti. de tanto Te evocar interiormente poderia tornar-Te próximo de mim, mas a fé ficaria de lado, não me abandonaria. Talvez até pudesse sentir que não tinha percebido quem Tu eras.

Mas foste tão diferente das grandes figuras religiosas da humanidade. É verdade que foste muito religioso: os Evangelhos relatam a forma como oravas. Mas até nesse campo continuas a ser diferente. A Tua vida
assemelha-se tão pouco a uma subida penosa. Nunca Te apresentas como uma excepção genial da humanidade. Não foram a ascese, a meditação, a luta ou o sofrimento que contribuíram para que atingisses um estado superior de experiência.

O movimento da tua vida é outro. Não é uma lenta conquista, uma dura iniciação, um aperfeiçoamento progressivo. Fazendo um percurso normal de evolução em termos de crescimento humano, Tu és um ser que, desde o início, vive como um dom. Está tudo em Ti, no que aceitaste ser, ou seja na tua natureza.

Pelo que dizes de Deus não parece que O tenhas descoberto depois de um longo caminho. Falas d’Ele como se fosse tudo evidente. De tal forma que sabes falar d’Ele de uma maneira que até uma criança é capaz de compreender. E quando nos dizes para amar os inimigos – verdade que constitui a chave de toda a existência humana na terra, verdade última para além da qual não é preciso procurar qualquer outra mais profunda –, expressa-la não como fruto de uma laboriosa procura, mas como uma evidência dada com aquilo que és. Não precisas de justificar este chamamento, de apresentar as razões desta verdade. Na tua boca, ela é simples e clara.

A necessidade que marca toda a experiência humana, necessidade de vencer, de conseguir, não caracterizam a tua vida. Pelo menos quando leio os Evangelhos, pareces, acima de tudo, receber, receber sempre.
O teu próprio ser é inteiramente um dom do Alto. A linguagem simbólica di-lo bem: Tu és Aquele que vem do Alto (João 3,31).

Vens de outro lugar. Há na tua vida uma naturalidade, uma inocência que só se explica desta maneira. A tua origem parece, de facto, diferente da nossa. Nem mesmo os mais religiosos e os mais cultos foram tão simples.

Quando tenho dificuldade em explicar-me o teu nascimento e a tua ressurreição, basta-me centrar o olhar naquilo que, segundo o Evangelho, incontestavelmente foste. A partir daí, o que me parece difícil vai ao lugar.

A tua própria pessoa, o teu comportamento, manifestam que Tu não és daqui e que não Te posso julgar segundo as leis deste mundo. Tu sabes de onde vieste e para onde vais (João 8,14). Os dois extremos da tua vida, a tua vinda e a tua partida, os dois instantes em que o céu e a terra devem ter-se tocado, iluminam-se a partir do centro, lá onde Te vejo ser e agir.

Dom do Alto, Tu só podes descer. Tens o peso de qualquer grande dom. Tu «desceste do céu» como diz o Evangelho (João 6,33 e 38) e continuas a descer. Está tudo neste movimento: descer, ir ao encontro dos que estão mais abaixo e parecem inatingíveis.

Deste modo, a palavra «dom» não explica apenas de onde vens. É também preciso compreender para onde vais. Tu voltas para o Pai, de onde vieste, mas voltas para lá num mesmo movimento de dom. Poderíamos chamar subida a este retorno, mas na realidade só reencontras o Pai ao esgotar totalmente o dom. Perante o peso deste amor – amor do Pai que Te oferece aos homens, o teu próprio amor que faz com que Te ofereças – a morte já não tem qualquer poder.

Foi atravessada a barreira intransponível.

Podemos perguntar-Te agora onde vais, pois foi aberto um caminho.

Voltaste para junto do Pai e contigo agora também nós passaremos.

Foste muitas vezes discreto sobre Ti mesmo. 

Para falar da origem e do fim da tua vida utilizaste expressões misteriosas.

Era intencional. Era preciso que fôssemos a Ti pela fé. 

Cabe-nos agora adivinhar o sentido desta discrição.

HÉLDER GONÇALVES

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