Não
sendo a fé primeiramente adesão a verdades nem submissão a uma afirmação que
não pode ser verificada,
é essencialmente confiança, entrega de si a um outro, à sua palavra ou ao que
ele é capaz de fazer.
Aquele que crê deixa de avaliar tudo em relação a si próprio.
Não olha para si.
Abandona-se.
No
entanto, o dom da fé em Cristo só pode crescer apoiando-se num conhecimento. À
medida que avanço, torna-se-me
indispensável compreender melhor o que, à partida, me atraiu para Ele e me
levou a dar-Lhe a minha
confiança. A palavra hebraica para conhecimento expressa mais uma comunhão
entre pessoas do que uma
aproximação intelectual. Ao querer conhecer a Cristo, procuro aprofundar o que
posso saber sobre Ele,
como
os Evangelhos falam d’Ele e como os outros escritos do Novo Testamento O
apresentam vivo.
Numa
das passagens mais pessoais que alguma vez escreveu (Filipenses 3,4-11), São
Paulo passa sem dificuldade
da fé em Cristo ao conhecimento de Cristo. Se a fé o faz abandonar tudo aquilo
de que se podia vangloriar
para se confiar apenas a Cristo, esta fé torna-se necessariamente conhecimento
pessoal de Cristo, no
concreto da vida, conhecimento do poder da sua ressurreição e comunhão com os
seus sofrimentos.
Dado
que Cristo não é uma figura do passado e que viver com Ele não tem nada de
estático, a confiança será sempre
uma das características da fé, pois seremos constantemente confrontados com
situações imprevisíveis.
A própria vida nunca nos deixa no mesmo lugar. Ainda por cima, o próprio Cristo
chama-nos a segui-l’O
para onde Ele nos precede.
Ninguém
pode abastecer-se de confiança. É verdade que podemos conseguir uma certa
serenidade ou tornar
as nossas convicções mais sólidas. Podemos impregnar-nos da palavra «confiança»
e redizer textos que
dela falam. Mas a confiança que temos em alguém vive-se sempre no caminho. Este
caminho conduz-nos a
situações inéditas, torna-se por vezes quase impraticável, pode mesmo descer a
uma escuridão onde parece
faltar todo o apoio sensível. É então que só Ele conta. É ainda impossível
olhar para nós próprios.
Resta-nos
escutar o pouco que se ouve da sua voz, a pequena centelha que discernimos da
sua luz. Por vezes,
a angústia pode tornar-se tal que deixamos de ver ou ouvir seja o que for.
Como
pôde Jesus repreender «a pouca fé» dos seus discípulos (Mateus 6,30; 8,26;
14,31; 16,8) em tais situações?
Será possível medir a fé? Os discípulos deveriam ter tido mais (ou uma reserva
maior de) confiança?
Em que é que a sua fé foi insuficiente? Jesus teria querido que eles se
mostrassem capazes de fazer
face ou de resolver a situação por si próprios? É aliás estranho que o
evangelista Mateus tenha colocado
lado a lado a repreensão pela «pouca fé» e a promessa de uma «fé como um grão
de mostarda» (17,20).
Se a fé, em si, é quase nada, porquê criticar os que têm pouca fé?
Será
que a fé dos discípulos devia ter crescido ao ponto de superar a situação e a
dominar? Mas uma atitude dessas
não seria coerente com o espírito do Evangelho, com a confiança simples de homens
e mulheres pobres.
Talvez a expressão «pouca fé» exprima acima de tudo uma confiança demasiado
limitada, que tivesse
ficado a meio caminho, como se houvesse domínios onde não pudéssemos depender
de Jesus, uma confiança
que tivesse limitado o poder de Jesus ao que é unicamente espiritual ou
interior e não fosse capaz
de
reconhecer a sua presença na Criação ou na História. Os discípulos não foram suficientemente longe.
Voltaram
ao que lhes parecia possível, em vez de ousar avançar apenas com quase nada, só
com Jesus. A sua confiança
tinha vistas curtas.
Guardo
na memória certas pessoas que mesmo tendo experimentado a dúvida se empenharam
com uma grande
audácia. Souberam dar prioridade à pouca luz contida na fé. Essa pequena luz
tinha para elas infinitamente
mais peso que as argumentações mais inteligentes que se lhes ofereciam.
Conseguiram assim chegar
longe e nunca parar. Uma fé plena pode ser ao mesmo tempo uma fé pequenina. Uma
fé que se apercebe
de tudo o que a pode perturbar, mas se recusa a deixar-se dividir, limitando-se
a uma parte da vida.
Repousa inteiramente naquele em Quem crê. Não se funda em si mesma. Só O tem a
Ele. E a Ele, não O pode
fixar, fechar, reduzi-Lo à sua própria medida. Ele vai sempre à frente,
dando-nos a impressão de não ter
fé suficiente.
Ao
contar a história da tempestade acalmada à sua maneira, São Lucas substitui a
repreensão de Jesus aos seus
discípulos («porque temeis, homens de pouca fé?») por uma pergunta: «Onde está
a vossa fé?» (Lucas 8,25).
Lucas atenua a repreensão e desejaria uma resposta do leitor. Gostaria de me
imaginar numa situação semelhante
e ouvir eu próprio a pergunta de Jesus. Parece-me que não poderia deixar de
responder: «Mas és
Tu a nossa fé». É evidente que em nós há falta de fé. Ela nunca está à altura
do dom que nos foi entregue
e
não consegue fazer face a acontecimentos críticos. Mas quanto Tu estás
presente, eu creio.
Tu carregas tudo,
inclusive a minha falta de fé. A Tua presença é presença de fé.
A
história do pai da criança epiléptica referida no início desta reflexão mostra
ainda melhor até que ponto Jesus
está próximo daquele que não pode crer. O pai tinha-se aproximado de Jesus
dizendo: «Se podes alguma
coisa, socorre-nos, tem compaixão de nós» (Marcos 9,22). Jesus devolve ao pai
as palavras «se podes»,
acrescentando: «Tudo é possível a quem crê.» No fundo diz-lhe praticamente:
«Cabe-te a ti ter confiança».
No entanto, não ficou à espera, pôs-Se ao lado deste pai e quando ele não
conseguia acreditar, carregou
também isso aos seus ombros. Acreditou com o pai e assim o impossível
aconteceu. Deste modo, não devemos pensar que uma fé enfraquecida está longe de Jesus. Ele próprio vem em
auxílio dos que têm dificuldade
em acreditar.
HÉLDER GONÇALVES
Sem comentários:
Enviar um comentário