quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Eis-me aqui Senhor


Eis-me aqui

Na vocação de Samuel, são centrais as palavras “Eis-me aqui”: “Eli, chamou-o e disse: «Samuel, meu filho!» perguntou-lhe Eli: «Que te disse o Senhor? Não me ocultes nada. O Senhor te castigue severamente, se me encobrires alguma coisa de quando Ele te disse.» então Samuel contou-lhe tudo sem nada ocultar. Eli exclamou: «O Senhor fará o que bem lhe parecer.» Samuel ia crescendo, o Senhor estava com ele e cumpra à letra todas as suas predições.

Todo Israel, desde Dan até Bercheba, reconheceu que Samuel era um profeta do Senhor. O Senhor continuou a manifestar-se em Silo. Era ali que o Senhor aparecia a Samuel, revelando-lhe a sua palavra” (ISm 3, 16-ss).
Samuel entra, numa dinâmica de permanente conversão ao Senhor, procurando conhecê-LO, segui-LO e cumprir a Sua vontade. O seguimento de Deus é expressão da vontade de realizar a conversão permanente.


Eis-me aqui, para Te seguir

Optar por seguir ou não o Senhor é uma opção que estrutura radicalmente a vida de cada pessoa e das comunidades, e que é posta à prova diariamente, nomeadamente quando há mudanças importantes na vida.
O seguimento de Deus tem o seu expoente máximo em Jesus Cristo – verdadeiro Deus e verdadeiro Homem-, o único que cumpriu a vontade do Pai na totalidade. É Jesus Cristo – ontem, hoje e sempre – que intervém nas comunidades reunidas em Seu nome, nos crentes que se decidem a seguir o projecto de Deus. Ele mostra que essa acção é resposta à fidelidade de Deus e convite para prosseguir em comunhão de fé e de amor a vida inspirada pelo Espírito Santo e actualizada na Igreja, de geração em geração. Esta dinâmica histórica postula que cada cristão ‘viva’ a história de Deus e reconstrua na sua vida a vida divina, procurando discernir os melhores caminhos para O seguir, num esforço permanente de superar arbitrariedades e reduções.
A resposta a Deus não só gera um estilo de vida, como ela mesma já é um estilo de vida fiel a Deus, diariamente assumida e discernida em comunhão com a comunidade dos crentes, espírito de missão, em abertura ao futuro e comunhão com o Eterno.


Eis-me aqui, para ser Igreja

Para seguir Deus e o Seu projecto é indispensável viver em comunhão e sintonia com a Igreja. A inspiração que leva a uma tomada de posição, a orientar-se para Deus, a discernir no que se comprometer na construção do Reino, é uma inspiração que vai amadurecendo mediante um diálogo longo e profundo na fé, na escuta humilde e atenta da Palavra de Deus, celebrada na liturgia. Mas é também uma inspiração interpretada no discernimento arriscado do dia-a-dia, numa leitura dos sinais dos tempos, que leva ao compromisso solidário com os homens e comunidades de boa vontade.
Ser Igreja, seguir Jesus Cristo, responder ao apelo de Deus, dizendo “Eis-me aqui” é, sobretudo, optar pela vida, pelo amor, crescer na fidelidade e comprometer-se no serviço ao Reino de Deus, solidarizando-se na justiça e na amizade. Ora, esta acção nunca está acabada e o modo de seguir Deus nunca está totalmente perfeito. Exige um esforço contínuo de discernir e aperfeiçoar o que é ser discípulo de Cristo.


Eis-me aqui, para ser com Cristo

Ao optar por ser discípulo de Cristo, mostrando a disponibilidade de O seguir verifica-se que nesta aventura não há lugar para o anonimato e para a rotina. Deus chama cada pessoa pelo seu nome, e imprime-lhe uma dinâmica de vida que não se compadece com rotinas.
O seu discípulo de Cristo coloca cada crente sob lei de Cristo, isto é, sobre a lei da cruz, que é a lei do amor. Por esta dinâmica interna do amor, Jesus Cristo faz de cada discípulo uma pessoa de comunhão. E é esta comunhão com a Trindade que revela a cada pessoa aquilo que ela é e o que pode ser, mostra-lhe as suas limitações e as suas potencialidades. Unido a Cristo, o crente explode em possibilidades de ser como Cristo, Aquele que foi totalmente fiel ao Pai.
Chega-se ao umbral do inefável, onde a experiência de relação e comunhão com Deus cresce à medida que esta entrega se intensifica em obras, em mística e em relação filial com Deus, por Jesus Cristo.
Aí a meta será dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vive-a na fé do filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (GI 2, 20).

HÉLDER GONÇALVES

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