quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Advento e Solidariedade

A preparação para o Natal, nascimento de Jesus Cristo, Salvador e Redentor da humanidade, é uma oportunidade singular de nova e adequada compreensão da vida. Não se pode vivê-la sem a luminosidade própria da fé que alimenta a luz da inteligência, garantindo um caminho de horizontes largos e belos. A Igreja Católica, sábia e pedagogicamente, convida todos a viverem esse tempo do Advento.  Nas quatro semanas que antecedem o Natal, a Igreja cria oportunidades importantes para se cultivar, de maneira profunda, a escuta da Palavra de Deus e, assim, fomentar e sustentar os laços de fraternidade, capacitando cada um no exercício dos gestos de solidariedade. São incontáveis as possibilidades, pelo percurso deste caminho do Advento, preparatório para o Natal do Senhor.

Para cada peregrino, homens e mulheres de boa vontade, desenham-se novos horizontes que qualificam a vida tão preciosa de cada um, razão pela qual Ele, Cristo Salvador, encarnou-Se, igual a nós em tudo, excepto no pecado, para nos resgatar da condição de escravos e reconquistar o sentido mais autêntico da nossa liberdade. Trata-se, particularmente, de um caminho de vivência espiritual. Não pode esgotar-se simplesmente no que chama a atenção, e até alegra, pelos enfeites, luzes e cores, nem mesmo nas confraternizações. É preciso aproveitar o momento para reflectir a própria interioridade, alargando este alicerce que nos capacita para uma vida comprometida com a cidadania e com a autêntica fé professada.

Pensando na verdadeira e real preparação para o Natal do Senhor, é bom reflectir sobre o relevante sentido de pertencimento à sociedade. Cada um olha a sua condição de cidadão, os seus direitos e deveres, as suas lutas e conquistas, empenhos para garantia de liberdades e de atendimento às necessidades fundamentais. Este olhar para si, analisando projectos pessoais e familiares, institucionais e outros, obriga-nos a ver, sobretudo neste tempo, os mais pobres e sofredores, nos diversos cenários da sociedade.

Um dever especial, sem esquecer nenhum dos que reconhecidamente são sofredores e pobres, é lançar o olhar e unir o coração aos que estão mais desconsiderados na sua dignidade. Refiro-me aos nossos irmãos e irmãs que estão nas ruas das cidades. Uma situação que não pode ser apenas tratada com Leis e prescrições. Indispensáveis são o sentimento e o princípio humanístico da solidariedade, antídotos para acções abominavelmente higienistas.

Retransmito um convite-intimação do Papa Francisco, na sua recente Exortação Apostólica Alegria do Evangelho: tornar realidade em nós e no nosso meio o Natal de Jesus Cristo para nos curar das indiferenças, incompetências nas respostas e incapacidade para acções prioritárias, destinadas aos mais pobres. Vamos cultivar "uma fraternidade mística e contemplativa que sabe ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe descobrir Deus em cada ser humano, que sabe tolerar as moléstias da convivência agarrando-se ao amor de Deus, que sabe abrir o coração ao amor divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o seu Pai bom”.

Vamos tratar diferente, comprometermos mais com os mais pobres. Só assim será verdade o voto de “feliz Natal” que desejamos uns aos outros. 

Que o propósito deste Natal seja especialmente a qualificação de todos na condição de integrantes da sociedade.


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